O discurso e seu poder libertário dentro da perspectiva da autoria.

O ser humano tem a necessidade de expressar-se para pode viver em sociedade. O discurso esta presente no cotidiano de cada indivíduo. É através dele que se pode obter conhecimento sobre si mesmo e sobre tudo que está ao redor. Por meio da linguagem o individuo encontra mecanismos para comunicar-se com o mundo, expressando-se através do discurso. Para o linguista José Luiz Fiorin, o discurso está intrinsecamente ligado à política, entendendo este último no sentido de relações de poder (FIORIN, 2009). Todos estão imersos em relações de poder, seja dentro do ambiente familiar, na escola, comunidade religiosa, entre outros. São dentro desses ambientes que o discurso ganha vida e sentido. Entretanto, existem aqueles que, ao invés de se estabelecerem como agentes autônomos de seus discursos, apoderam-se de maneira inapropriada do que outros estão discursando, seja direta ou indiretamente, tomando para si algo que não lhe pertence através do plágio. Eis a problemática deste presente texto. Como pensar a construção de indivíduos como seres sociais, que se estabelecem como tal a partir do discurso, se alguns se apoderam do que outros estão dizendo, tornando-se sujeitos repetidores e plagiadores? Refletir sobre as causas desta questão, a partir do ponto de vista de alguns pesquisadores faz-se necessário para compreender essa realidade e buscar caminhos que viabilizem a construção de indivíduos autônomos, protagonistas de sua própria história a partir do uso adequado do discurso.

O discurso pode libertar ou aprisionar o indivíduo. Saber utiliza-lo não deve ser privilégio somente para uma parcela da população. O sujeito que não interpreta o universo discursivo que está inserido é facilmente manipulado, isto é, não tem autonomia sobre suas ações, sendo sempre conduzido por ideias e interpretações de outros, tornando-se prisioneiro do sistema. Os recursos midiáticos são um exemplo de manipulação em massa do discurso. Grande parte dos espectadores que têm acesso a uma determinada informação através da mídia, assimilam tudo sem fazer uma leitura critica do que está sendo dito.

A grande responsável por essa falta de senso crítico da realidade é o ensino deficitário. Esse problema começa desde a educação básica e vai até as universidades. Paulo Freire no seu célebre livro Pedagogia do oprimido, apresenta algumas denuncias de como a educação, ao invés de possibilitar a autonomia do educando, dando a ele ferramentas para pensar criticamente sobre os discursos do seu meio social, tem tratado o mesmo como um pote vazio em que, o educador, tem a função de depositar todos os conteúdos possíveis, conduzindo-o a ser repetidor de tudo que for dito, sem pensar criticamente sobre o assunto (FREIRE, 1970). Este modelo de educação denunciado por Paulo Freire mostra que o aluno é condicionado apenas a reproduzir o discurso que seu professor está lhe depositando, sem poder expressar suas opiniões sobre o assunto ensinado. Percebe-se que este sistema de depósito de informações conduz o educando ao plágio, visto que ele não é estimulado a criar, e sim a copiar.

Obdália Santana Ferraz Silva, professora do departamento de educação da Universidade do Estado da Bahia, aborda de maneira profunda sobre o plágio no seu texto: Entre o plágio e a autoria: qual o papel da universidade? Obdália fez uma pesquisa de campo com 20 estudantes universitários do curso de Letras da Universidade pública da Bahia, sendo este na modalidade semipresencial. Os relatos são essenciais para uma melhor compreensão da problemática em torno da apropriação indevida do discurso de outrem.

Assim como Paulo Freire, Obdália trás a tona o modo equivocado que a escola tem praticado o ensino. Ao invés de instruir o aluno a criar, expressando-se através do discurso, as instituições de ensino apresentam o conteúdo todo pronto, dogmatizado, cabendo ao aluno apenas a tarefa de copiar. Obdália identifica esse modelo de educação como sendo a raiz do plágio (SILVA, 2008). O fragmento do relato de um aluno que participou da entrevista realizada pela professora Obdália comprova o que esta sendo dito. “Fomos acostumados desde as séries iniciais a fazer os nossos trabalhos copiando na íntegra textos de livros e enciclopédias, e isso sempre foi aceitável pelos nossos professores…” (SILVA, 2008, p.362).

Portanto, entende-se que, enquanto as instituições de ensino persistirem neste molde de ensino pautado simplesmente na reprodução do discurso do outro, sem nenhuma reflexão critica sobre o assunto, o plágio continuará sendo realizado de modo natural, principalmente dentro das universidades. É preciso que todas as unidades de ensino, da educação básica a pós-graduação, incentivem os educandos a se tornarem autores de seus próprios discursos, conduzindo-os a refletirem criticamente todo conteúdo que o meio social em que estão inseridos lhes apresente. Apropriar-se de uma coisa que não é sua é crime, além de ser totalmente antiético. Criar ambientes de reflexão sobre o uso adequado do discurso dentro dos espaços universitários, estendendo-se para a educação básica, é um caminho possível para se resolver o problema do plágio. Dentro desse espaço é preciso haver o incentivo da leitura critica da realidade, da construção de indivíduos autônomos criadores de seus próprios discursos, com consciência ética de como utilizar aquilo que outros estão dizendo, fazendo as devidas citações, ao invés de apropriar-se daquilo que não lhe pertence. Assim, ao invés de meros plagiadores, surgirão grandes autores, protagonistas de sua própria história.

Referências Bibliográficas:

FIORIN, José Luiz. Língua, discurso e política. Alea, Rio de Janeiro, v.11, n.1. Jan./jun p.148-165, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1517-106X2009000100012&lng=pt&nrm=iso> Acesso em: 14 ago. 2013.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

SILVA, Obdália Santana Ferraz. Entre o plágio e a autoria: qual o papel da universidade? Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 38, maio/ago. 2008.