A permanência da cultura da colônia de exportação

Como o Brasil, um país com todos os recursos naturais e humanos possíveis, pode ser um país subdesenvolvido? Como uma elite riquíssima pode continuar a enriquecer como seus ancestrais? Como essa elite permite que uma população, a 5° maior do planeta, fique condenada à marginalidade do sistema socioeconômico?

Gosto muito de utilizar este exemplo. O Brasil é um país riquíssimo em recursos naturais. Nosso país é o 2° maior produtor mundial de minério de ferro, produziu em 2011 mais de 390 milhões de toneladas, a China ocupou o 1° lugar e a Austrália o 3° lugar, segundo dados da U. S. Geological Survey e UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento). Temos grandes siderúrgicas, temos energia, temos técnicos e engenheiros, mas então, por que não fabricamos nossos próprios trens? Por que compramos da China nossos trens do Metrô Rio? Nossa elite econômica e política não tem interesse em desenvolver nosso país. Eles têm um projeto muito claro: continuar exportando matérias-primas. Desde os tempos coloniais, a elite brasileira sempre enriqueceu exportando matérias-primas e não tem interesse em mudar essa estrutura bem sucedida.

No século XX, com as crises internacionais essa elite teve de diversificar a economia e o Brasil atingiu o posto de país subdesenvolvido e industrializado. Contudo, estes produtos industrializados são de baixa tecnologia ou de tecnologia ultrapassada. Novamente, nossa elite abdicou de colocar o país na vanguarda do século XXI. Nas últimas décadas não investimos em educação, ciência e tecnologia, com isso, o Brasil ficou atrasado na produção de bens industrializados de alta tecnologia. Esses produtos de ultima geração são de fundamental importância na inserção dos países na economia global. Até mesmo entre os principais países do BRICS, China, Índia e Rússia não abdicaram do investimento em ciência e tecnologia. Por isso, estão mais inseridos na economia global. O prognóstico para o Brasil é sombrio, pois sem esses investimentos, apenas trocaremos nossos consumidores, que antes eram a Europa e os EUA e agora é a China. Continuaremos subservientes aos desejos e necessidades de outros países.
Voltando ao exemplo, estamos comprando nossos trens da China e da Coréia do Sul. Justamente esses países, entre os países subdesenvolvidos, foram os que mais investiram em ciência e tecnologia. Assim, enquanto o Brasil forma 30 mil engenheiros por ano a China forma 400 mil. Continuamos como no século XIX, exportamos matérias-primas e consumimos produtos industrializados, apenas algumas peças da Divisão Internacional do Trabalho foram mudadas, mas o Brasil não mudou. Os trens fabricados na China são construídos com o minério de ferro produzido no Brasil. Assim, exportamos o minério de ferro e compramos o produto industrializado da China. Para piorar a situação, o trem é um produto da primeira revolução industrial, do século XIX. Não temos capacidade de produzir um bem industrializado do século XIX? Claro que temos, mas não interessa à elite brasileira.

A solução para esse atraso que vivemos passa, inevitavelmente, pelo investimento na educação do povo brasileiro. Entretanto, isso não é possível, pois, ao oferecer uma educação de qualidade, esse mesmo povo começará a questionar a condição do país e sua própria condição socioeconômica. Isso não interessa a uma elite que a menos de 150 anos era escravocrata. Apesar do fim da escravidão ainda existem mecanismo que condicionam uma servidão ou clientelismo dentro das estruturas sociais do Brasil. E a manutenção dessas estruturas perpassa pela negação ao acesso à educação de qualidade. Assim, desenvolver o país implicaria na ruptura das estruturas de dominação da elite econômica e política. Esse projeto é perverso, pois, negar o acesso á educação de qualidade, significa jogar a população do Brasil na marginalidade do sistema socioeconômico. Porque, esta população não terá como participar do mundo globalizado, não terá como contribuir para avanços científicos e tecnológicos. Atualmente, nossa população não serve de atrativo para as empresas transnacionais, uma mão de obra cara e ineficiente. Os asiáticos são muito mais interessantes do ponto de vista econômico. Por exemplo, a China com a maior população do mundo consegue ter uma mão de obra muito barata, atraindo empresas transnacionais, porém, a China não se esqueceu de investir em seus engenheiros, além disso, todas as empresas estrangeiras que operam na China têm que abrir a patente de seus produtos para o governo chinês. Com isso, mesmo não desenvolvendo determinado produto, os engenheiros chineses têm acesso rápido à tecnologia que demandou tempo e dinheiro para ser produzida. E o Brasil?

Dessa forma, nosso país e nossa população estão marginalizados frente à economia global. Somos a sétima economia do mundo, mas o setor primário é o principal motor econômico. Nossa população está despreparada, ela se submete a empregos e a condições de trabalho cada vez menos seguras, como o caso das empresas terceirizadas. Em pleno século XXI, esta população quer ter acesso aos produtos de última geração (celulares, computadores, etc.), ou seja, ela é um mercado consumidor para as empresas transnacionais. Mas esses produtos estão muito superfaturados em relação aos preços vendidos no mercado europeu e no mercado norte-americano. Nossa elite está criando uma massa de consumidores que não podem consumir, não possuem ocupação. A riqueza gerada pelo setor produtivo fica acumulada no bolso das elites. A distribuição de renda no Brasil é uma das piores do mundo. Isso faz com que a violência cresça cada vez mais. Tudo isso para a manutenção dos status quo das estruturas socioeconômicas dominadas pela elite, que mantém o Brasil como nos tempos coloniais, dependente, subdesenvolvido, mas também, um dos maiores produtores de gêneros agrícolas (soja, café, cana-de-açúcar, etc.) e produtos minerais (minério de ferro, bauxita, nióbio, etc.). Com uma indústria atrasada. Continuamos uma colônia de exploração.

11181544_727556317390899_383037023_o